Amy, por quê não deu pra salvar você?

Por Bruna Machado Meneghetti – Psicóloga e sócia efetiva do IEPP.

Essa foi a pergunta que me fiz diversas vezes ao assistir o documentário dirigido por Asif Kapadia, sobre a vida, carreira e morte da cantora Amy Winehouse.

Pelo que mostra o documentário, a cantora me pareceu  ser uma jovem adulta em conflitos. Sentia a falta do pai, que havia saído de casa ao final de sua infância. A figura da mãe pouco aparecia, o que para mim, já é um sinal de que esta lhe faltava. Sua avó materna, se não estou  enganada, parecia ser uma figura de referência e de força para ela. Amy sempre foi irreverente. Era tímida, mas tinha urgência em expressar-se. Algo gritava de dentro dela desde cedo. Ainda nova saiu de casa e desde então, fazia uso de drogas.

Amy não escondia a relação ambivalente que possuia com o pai. Precisava dele por perto, mas imagino que deveriam ser difíceis os momentos juntos. Através da música, passou a expressar suas emoções, principalmente ligadas aos relacionamentos com namorados. Por sinal, seu primeiro namorado, ao que me consta, era mais velho, mas Amy se desinteressou.

Falando em interesse, também me perguntei o tempo todo, o que Amy estava buscando? Do que ela sentia tanta falta? Que vazio tão profundo era esse, que precisava ser preenchido com o uso abusivo de álcool e drogas? O que não foi suficiente?

Além disso, Amy sofria de bulimia, atravessou crises de depressão, apresentava comportamentos impulsivos e se auto-mutilava, dentre outros comportamentos que foram escancarados pela mídia. Ao assistir estas cenas e comentários, tive muita vontade de segurá-la forte. Segurá-la até fazê-la sentir que tinha um corpo que é a casca de uma mente. Porque essa é a sensação que me passou: Amy, precisava transpor para o corpo, sentir na pele, as dores da alma. As dores que por dentro ela não suportava e não tinham nome.

Entristeci pensando: como ninguém fez nada? Como não foram mais rígidos com a questão da reabilitação? Era “só” cuidar dela! Esse só cuidar, era “só” ir contra todo esse impulso agressivo que tinha dentro de Amy. Mas para isso, as bases  e a continência tinham que ser suficientes. E “base”,  parece que foi o que faltou para ela.

Penso que Amy precisava ser compreendida, olhada, cuidada, contida.  Precisava de alguém que lhe disesse: eu sou forte o suficiente e te amo o bastante para dizer que daqui tu não vais passar! Amy precisava de alguém que cuidasse dela, sem receber nada em troca. O que aparentemente não aconteceu no seu casamento, que me pareceu mais um degrau para a sua queda. Pelas suas tendências internas, Amy escolheu alguém tão ou mais destrutivo que ela como seu par, o que a essa altura do campeonato não me surpreendeu.

Alguns amigos tentaram interferir, inclusive se afastando de Amy, intencionados a mostrar o quanto não compactuavam com seu modo de viver e com esse pacto com a morte que, de certa forma, estava fazendo. Porém ela estava embriagada de doença. No desespero de dar conta do vazio a qualquer preço.

Eu já sabia o fim da história mas, ao assistir o documentário, fiquei angustiada  ao participar do prenúncio de sua morte. Diversas recaídas, familiares lhe colocando insconsicente dentro do avião para cumprir com a agenda de shows, o relato da médica falando abertamente sobre o quadro clínico dela. É fácil falar mas, hoje, parece que sua morte seria tão óbvia. Lembro até de uma página da internet criada na época chamada: “when amy winehouse is gonna die?”, na qual as pessoas, sadicamente, apostavam a data de sua morte.

Parece que tudo escorregou pelas mãos de todos. Me questiono qual é o limite entre saúde e doença, quando a doença é musicalmente comercializada preenchendo a vida de tantas pessoas ? A música “Rehab” fez tanto sucesso por quê? É sabido que suas canções são talvez  a parte menos doentia disso tudo e o lugar no qual Amy fazia a tentativa de elaborar suas dores e transformá-las em algo bom. Mas Amy estava sozinha. Sempre esteve! Fico imaginando, se ela tivesse feito algum tipo de acompanhamento psicológico a longo prazo (não sei se não  fez). Não digo que isso a salvaria, mas quem sabe, alguém inteiro ao seu lado, sem expectativas e julgamento moral, sem nada pra lhe tirar. Alguém que tivesse a capacidade de se colocar no seu lugar e de conter e nomear suas angústias. Quem sabe poderia ter outro fim?

Também não terei a resposta destas indagações e sei que algumas pessoas fizeram o seu melhor por ela. Mas algo está dado: Amy, buscou e desafiou o tempo todo os seus limites. Os limites da vida, do seu corpo, os limites da sua voz, da sua mente. Amy precisava de limites. Limites que não encontrava em lugar algum, até que um dia seu coração parou de bater.