Desespero e Violência

Por Ana Lúcia Mandelli Guaragna – Psicóloga, sócia graduada do IEPP.

Em 2016 retornei de um congresso de psicanálise em Cartagena, na época escrevi uma reflexão sobre o impacto de algumas cenas, vivenciadas na cidade, em meus pensamentos. Agora, dois anos depois dessa escrita, me pergunto se ainda seria válido compartilhar os pensamentos daquela época. Ao me dar conta do conceito de compulsão à repetição e da atemporalidade do insconsciente, fez sentido retomar essa produção. O tema que abordo nessa reflexão se repete desde os primórdios da civilização e faz parte da nossa vida psíquica: desespero e violência. Além disso, ainda é um grande problema na nossa cidade e motivo de angústia para muitos. Não sei se um dia deixará de ser, espero que sim. Faço a minha parte nessa história ao compartilhar minhas reflexões, e torço para que reverbere em alguém o que reverberou em mim.
Aqui vai o que escrevi em 2016:

Há alguns meses retornei de um congresso de psicanálise sobre a temática do corpo em Cartagena, cidade que me pareceu apropriada para sediar o tema de tal encontro. Dentre toda a experiência da viagem, do que aprendi no congresso, do que vivi na cidade, algo me tocou e reverbera em mim: os vendedores ambulantes. Especificamente, o desespero destes vendedores. Massagistas nas praias, vendedores de bijus, de quadros, de tudo que é coisa como em muitos lugares do mundo vemos. Mas nessa cidade colorida, tão cheia de história e de cultura, em determinado momento fiquei triste. Por detrás de todas as cores, animação dos restaurantes, das praças e das praias, encontrei o desespero desses ambulantes. No começo fiquei incomodada, senti meu corpo invadido por uma massagista que sem permissão tocou meus pés, dizendo como eu estava tensa e quase suplicando para que eu aceitasse os seus serviços. Com os vendedores de pulseirinhas, bolsas e todo o resto não foi diferente. Mas foi uma dessas massagistas que me abriu os olhos, quando me disse: ” nós dependemos de vocês pra viver, vocês são o nosso sustento” , compreendi, fiquei triste. Voltei para Porto Alegre pensando nisso, pensando no desespero, na precariedade, na miséria, e como às vezes é difícil de se conectar com tais sentimentos, por vezes escondidos por outras atitudes. Essa experiência me fez pensar na violência na qual estamos vivendo. Que violência é essa? Sentimo-nos invadidos, lesados em nossa segurança, revoltados. Será isso um reflexo do desespero? Quando o desespero é tão grande, não existe barreira, não há pensamento, apenas ação, não existe possibilidade para encontrar soluções de forma criativa, o outro vira um objeto que é obrigado a me dar o que necessito para sobreviver. Na Colômbia, o nível de desespero que conheci me pareceu ainda suportável, não me senti insegura, mas por vezes um pouco invadida nos limites do meu corpo e do outro. Mas em Porto Alegre? Quando a invasão e o desespero viram violência? Será que em nossa cidade não passamos do ponto? Quem sabe falhamos enquanto sociedade quando não nos deixamos tocar pelo grito do outro.