Trump, o bicho-papão atualizado

por Elisa de Azambuja Loureiro (Psicóloga, Sócia Graduada e Diretora de Comunicação do IEPP)

Em uma rápida atualização sobre o mundo além das paredes do consultório, me deparo com a imagem de uma criança sendo separada dos pais imigrantes. Olhos enchem de lagrimas. A imagem não te choca? O nome do Presidente dos EUA me causa calafrios e poderia até utilizar a analogia de se parecer com o Bicho Papão, a Fera ou o Lobo Mau. Não me leve a mal, não me refiro à política, mas sim ao personagem.
Trump nos choca ao passo que escracha o mau em nossas caras, o arquétipo do vilão, do Bicho Papão, representa o lar dos monstros suprimidos do nosso inconsciente, aquilo que não gostamos de perceber a existência em nós mesmos. Sua função é a de desafiar o bem, o herói, e lhe dar um oponente digno a ser combatido. Um inimigo poderoso é quem força o herói a crescer para enfrentar desafios. O que se precisa contar neste momento? Com a capacidade de resiliência dos refugiados, aqui no personagem e arquétipo de herói, para dar conta da situação traumática. Para iniciar o processo de adaptação em que ocorre um dispêndio grande de energia e necessita-se de suporte afetivo-emocional.

Não sejamos tolos, sabemos que na melhor das hipóteses nosso desenvolvimento psíquico nos levou a ter o bem e o mau integrados, ou seja, também temos nosso lado vilão/Trump e o herói/refugiado. A Psicanalista Luciane Falcão (2009), em um artigo para o Jornal da SPPA, refere que, quando falamos da necessidade da instituição do Superego no psiquismo, estamos falando sobre a necessidade do surgimento de limites, do respeito as diferenças e da capacidade do individuo desenvolver a capacidade simbólica. Com isso, ele poderá tolerar a frustração, consequência da necessidade de renúncia e dos sacrifícios impostos pelo desenvolvimento.

Morin nos fala que “perder a esperança é grave” e me lembro de Freud que nos mostrou que há uma polaridade que rege a vida psíquica e a vida social do homem. O amor, Eros, liga; o ódio, Tanatos, destruição, desliga, dissocia e separa. Ambas as tendências vêm juntas, e o que precisamos fazer para que Eros domine? Freud pensava que precisávamos liberar Eros para combater Tanatos, ou seja, precisaríamos fortalecer os laços de afeto entre os homens, precisaríamos da razão como força capaz de vencer o mundo pulsional, do recalque agindo sobre impulsos agressivos.

Pera aí (!) “Mãe, eu sei quem atirou em mim! Foi o blindado, mãe! Ele não me viu com a roupa da escola?” disse Miguel aluno e morador do complexo da Maré no Rio de Janeiro vitima de uma bala. Parece que o bicho papão mora mais perto do que imaginávamos.

Precisamos acreditar que o sujeito só pode ser sujeito quando os bons objetos estiverem constituídos dentro deles, e que esses possam dominar seu ego, importando a possibilidade dele instituir a diferença entre ele e o outro. É aqui que nasce a subjetividade, essencial para o progresso, assim como a necessidade da razão. Há a necessidade da crise, com seus aspectos de desintegração e regressão, para se buscar novas soluções através da criatividade, que por si só é transformadora. Sejamos criativos, férteis, simbólicos, por um mundo integrado e tranquilo de se habitar.