Confraria Entrelinhas – A Bela e a Fera

No dia 17 de maio o IEPP realizou o evento Confraria Entrelinhas, cujo tema era “Bela e Fera: transformações do feminino nos contos”. A convidada Anie Stürmer escreveu um texto que abrange o que foi discutido no evento:

A BELA E A FERA

O último filme da Bela e a Fera, lançado em março de 2017 não difere muito dos outros que já foram exibidos, principalmente os desenhos. Contudo, se o compararmos com o romance original, escrito pela madame Villeneuve, em 1740, guarda muitas diferenças, levando em conta que as histórias infantis de agora são, na verdade, produto de histórias escritas para adultos. Mas foco é o filme atual. A história de 2017 é a que conhecemos, com algumas nuances. Neste filme observamos uma Bela independente e intelectual. Além disso, ficamos sabendo da história tanto de Bela como da Fera. Ambos perderam a mãe precocemente. Fera era um príncipe, e depois da morte da mãe,foi criado por seu pai, tornando-se egoísta e insensível. A mãe de Bela morreu em Paris, vítima da peste, quando esta era ainda bebê, e para proteger Bela, seu pai a levou para o povoado onde se inicia a história. Ele sonega de Bela esta verdade, e ela vive sem saber de seu passado. Pai e filha formam uma dupla muito forte e fechada e não há ninguém no povoado capaz de separa-los. Existe um rapaz, Gaston, que deseja Bela como sua esposa para que ela lhe sirva, numa referência ao machismo ainda vigente na sociedade atual. Aí que entra a Fera, pois Bela fica seduzida pela intelectualidade dele. Isso a fascina. Então, além de se aproximarem pela identificação da perda da mãe, também têm um gosto para a leitura e o conhecimento, e Bela apaixona-se pela Fera que é capaz de separa-la do pai, se entendermos pelo viés edípico. Os detalhes e o restante da história são conhecidos de todos nós.

Mas…e se imaginássemos uma metáfora em que tanto Bela quanto Fera fossem duas partes da mesma pessoa?

Para desmanchar o feitiço e sair da condição de Fera é necessário aprender a “amar e ser amado verdadeiramente”, nada diferente do que de alguma forma fazemos quando começamos uma psicoterapia. Ao entrar em contato com nossos sentimentos verdadeiros, como os vínculos do amor, ódio e conhecimento, estamos acessando nosso castelo esquecido, nosso lado “Fera”.  Do contrário, estaremos fadados a viver eternamente reféns desses aspectos ocultos, não conectados do inconsciente. No filme, ao entrar num aposento proibido, Bela é expulsa do castelo pela Fera. Neste quarto está guardada a rosa que ocasionou todo o feitiço. Namedida em que o tempo passa, senenhuma mudança acontece, e Fera não acessar seus sentimentos, a rosa vai se despetalando, mostrando a impossibilidade de mudança e a resignação a ficar engessado naquela condição.Da mesma maneira ocorre com o indivíduo que adoece mentalmente e não busca ajuda,mantém um castelo esquecido e separado do povoado, representante daquilo que não quer ou não pode entrar em contato.

Numa alegoria do processo psicoterápico, a feiticeira no filme, faz o papel daquilo que chamamos, a “busca pela verdade sobre si mesmo”, papel da psicoterapia e do psicoterapeuta, denunciando o lado arrogante do príncipe que não aceita a simplicidade da rosa como presente, aspecto este que otransforma em Fera. Por outro lado, o pai de Bela, “perde” o caminho para a cidade, é atacado pelos lobos e errante, encontra o castelo que por sua vez o acolhe, oferecendo comida e calor, num convite sedutor, como se não pudéssemos fugir ao descobrimento da verdade. Ao lembrar do prometido à Bela e tentar roubar uma rosa, é preso por Fera. Bela tenta salvá-lo ficando em seu lugar,e quando conhece a Fera, apaixona-se por aquilo que ele é. A rosa que prende o príncipe à Fera também aprisiona Bela ao castelo..Todos esses trânsitos: povoado/castelo, quarto/rosa, prisão/liberdade, biblioteca/desconhecimento, Bela/Fera mostram aspectos sendo ligados e colocando em movimento uma parte do psiquismo que estava congelada, esquecida e mortificada. No momento em que os sentimentos são conhecidos, a vida retorna ao castelo e tudo aquilo que estava transformado em “coisa”, retorna à vida:o castelo é incorporado ao povoado, tal como os aspectos de nossa personalidade ao compreendermos e apreendermos nossos lados desconhecidos e obscuros.  A parte Fera se “casa” então com a parte Bela constituindo um indivíduo integrado e conhecedor de si mesmo.

 

Por AnieStürmer, Psicologa, psicoterapeuta, docente do IEPP