Harry Potter – 20 anos de uma história

Por Letícia Machado Moreira
Psicóloga, Psicoterapeuta, Especialista em Psicologia Clínica,
Psicóloga Escolar, Sócia Efetiva do IEPP.

 

Pensando sobre o fenômeno Harry Potter que depois de 20 anos, segue fazendo sucesso, fica a pergunta: o que prende tanto nesse mundo mágico?

Harry Potter fala de tempo, do nosso tempo. Fala de crescimento, algo que às vezes parece muito difícil de acontecer de verdade.

Os livros são construídos em forma de ritmo, melodia, rotina. Sabemos que a primeira pista para os acontecimentos da aventura começa antes do retorno as aulas, sabemos que no dia das bruxas algo suspeito acontecerá… e assim por diante. O calendário infantil segue sendo demarcado, e temos a garantia que antes dos exames finais resolveremos o mistério e voltaremos seguros para a casa dos detestados tios trouxas. Quando abrirmos o próximo volume, o fluxo segue e encontramos Harry novamente na casa dos tios, mesmo que contrariado, ele permanece ali, seguro, nos esperando. Esse ritmo vai tranquilizando e prendendo o leitor, porém, mesmo que pareça constante ele não é. É como se o ciclo se apresentasse em espiral, a cada novo ano, mesmo respeitando o calendário escolar, novas descobertas são feitas. Por exemplo, é preciso desconfiarmos de Snape durante seis volumes, mesmo ele provando no final de cada livro (até o quinto) que não era o responsável por nada daquilo, para então, termos a maturidade de entender isso no sétimo livro. Harry muitas vezes tem ideias fixas, e volta a repeti-las aventura, após aventura, até conseguir aceitar e assim se transformar e crescer no sétimo livro. A morte de Sirius poderia ter sido evitada se Harry tivesse confiado em Snape, por exemplo, mas o menino ainda não conseguia entender que nem tudo tem explicação e que o mundo nem sempre é dividido entre os comensais da morte e a ordem da fênix. É preciso errar, errar, errar de novo, até amadurecer, até crescer.

Crescer não é um caminho fácil, nem linear. E muitos se perdem nesse trajeto. Alvo Dumbledore, por exemplo, é rei das verdades parciais, quase chega lá, mas não cresce o suficiente. Severo Snape, não consegue ampliar seus horizontes e fica preso a verdades do passado, a um amor platônico que nunca poderá ser reparado. Arthur Wesley não consegue ser exemplo de lei em casa, de pai, pois está preocupado se o carro voador funcionou e não com a segurança de seus filhos que pegaram o carro sem saber usar, e sem ter a permissão dos pais. Voldemort é tão pequeno que não compreende que a imortalidade não é tudo, que não compreende o amor, nem o que é a amizade.

A diferença é que Harry está disposto a crescer e consegue no final da jornada entrar no mundo adulto e, generosamente, convida aos leitores a atravessarem esse caminho junto com ele.

Harry foi banhado por histórias e amor em seus primeiros meses de vida. O menino tinha um pouco mais de um ano, um pouco menos de dois, quando seus pais foram assassinados em sua frente. Poderíamos supor que um bebê assistindo a cena de assassinato dos pais, e, logo após, sendo maltratado por seus tios nos primeiros onze anos de vida, ficaria com marcar que o impediriam de amar. Mas isso não acontece com Harry, porque Lilian e Tiago estiveram presentes afetivamente nos primeiros meses da vida do filho. Seus pais morreram pra salvá-lo. Seu pai tentou retardar o ataque, entregando sua vida para que a esposa e o filho pudessem se salvar. Lilian, mesmo tendo a opção de fugir, entregou a sua vida para proteger Harry e, sem saber, destruiu Voldemort e deu o maior exemplo de amor ao próximo que o menino poderia ter visto.

Todos nós queremos ser olhados, queremos ser amados, mas para sermos amparado por esse olhar e por esse amor, eles têm de ser internalizado, temos que saber que em qualquer lugar estaremos com os amigos dentro de nós e é pra eles que podemos recorrer. E Harry internalizou o sentimento de amor ao próximo e por isso ele pode crescer, pode se sacrificar pelos outros, então pode ser adulto. É claro que esse sentimento não é fácil e não é descoberto de uma hora para outra, é necessário muita luta, muitas batalhas, muitas verdades descobertas frente a frente com a morte para entender que ele só pode viver, ser inteiro, ter sua alma só para si, se crescer. E, o mais importante, Harry consegue entender que crescer não é abandonar a infância sem olhar para trás, mas, pelo contrário, é colocá-la em seu devido lugar. É mostrar ao pequeno Harry – aquele bebê que viu a morte dos pais – e ao jovem Harry – aquele que luta por seus ideais -, qual o seu lugar dentro do, agora, adulto Harry.

E ele torna-se pai, e mostra aos leitores que acompanharam sua trajetória que perdoou os erros de Tiago, Sirius, Dumbledore e Snape ao dar a seus filhos os nomes dos muitos “pais” que agora estão pequenos em seus lugares. Harry, mostra no epilogo do livro, que ele pode crescer, pois perdoou os inimigos; e, compreendeu que a verdade não é única e imutável, mas relativa e está ligada a confiança que sentimos pelo outro, ao amor. Harry, adulto, transmite ao filho, pequeno, Alvo Severo, que ele tem o poder da escolha, que sempre podemos escolher qual o caminho que queremos seguir.

Dumbledore nos fala abertamente, ao longo dos sete volumes, que o poder que Harry possui (sem conhecer profundamente) e Voldemort não possui e nunca possuirá é o amor, mas é através dos exemplos de Harry que podemos entender como se ama de verdade. Nas Relíquias da Morte, aprendemos a duvidar de Dumbledore e das suas verdades parciais, mas em momento nenhum o leitor duvida de Harry e da sua capacidade de amar.

Nesta história há duas lições inquestionáveis: a de que a verdade é relativa e a de que o amor é a única magia que vence. São lições que levam Harry ao crescimento.

Harry aprende que a verdade está ligada a confiança. Acreditamos em quem confiamos e confiamos em quem aprendemos a amar. O menino chega a ficar em duvida sobre a verdade parcial de Dumbledore ao longo do último livro. E ali, na fronteira entre a adolescência e o mundo adulto, Harry sente o desamparo das palavras de Dumbledore, mas na hora da escolha final, de confiar ou não, Harry não hesita, acredita no amor que o diretor sempre demonstrou a ele e confia. Ele não acredita em tudo, nem há mais sentido em acreditar em tudo sem questionar, ele apenas confia que o caminho do amor poderá salvá-lo.

Dumbledore diz a Harry que o mundo não é divido entre o certo e o fácil; Sirius lhe conta que o mundo não é dividido entre os Comensais da Morte e a Ordem da Fênix; e, Harry, compreende que o mundo vai além do julgamento que fazemos dos outros. O menino vai além das figuras adultas que ele conheceu na escola e na vida, Harry compreende a teoria de amor incondicional e pratica em sua vida sem buscar racionalizá-la.

Ali onde Dumbledore parou, Harry seguiu e por isso cresceu e teve os filhos que Dumbledore não teve, a esposa que Sirius nunca encontrou, a família que Tiago perdeu, a responsabilidade que Lupin sentiu medo. Harry ultrapassa-os, como os filhos devem ultrapassar os pais, mas o menino só cresce, porque suas figuras de identificação paternas e maternas lhe dão amor, coragem, amizade, confiança e permissão para que ele vá além deles.

Harry Potter é um livro que se passa dentro do período da adolescência e não há período mais confuso, mais questionado, onde os heróis caem, são destruídos para que a criança sinta o desamparo e possa buscar o seu amparo interno. É um período confuso naturalmente, de escolhas decisivas para o futuro, de mudanças internas e externas, de luto pela perda da infância e medos pelo futuro desconhecido. Mas Harry vai passando por isso, vai descobrindo o primeiro amor, o amor verdadeiro, as amizades, as rivalidades da adolescência e pouco a pouco vai desidealizando o pai herói, vai completando o seu complexo edípico e vai descobrindo o quanto de cada uma dessas figuras paternas está dentro dele mesmo para ajudá-lo e não para impedi-lo de viver. Harry vai se descobrindo através de seus atos e valores, vai agindo de acordo com seus ideais, que já estavam dentro dele, só necessitavam de algumas tarefas para aparecerem.

Harry faz tudo isso muito bem e vai, sutilmente, nos ensinando a percorrer os caminhos sem medo e com amigos. Ele nos dá a mão e nos leva até a entrada da idade adulta, abre a porta e nos convida a entrar, mas dali cada um deve seguir o seu caminho sozinho. Harry não pode nos levar para os “dezenove anos depois”, ele pode nos convidar a preencher esses dezenove anos, com família e trabalho, como ele fez, mas ali, como nas últimas tarefas dos livros anteriores, ele tem que ir sozinho, sem amigos, e nos também.

Voldemort, que é uma criança eterna, que tem medo de crescer, não aprende com seus erros, volta a cometê-los livro após livro. E no final do sétimo livro, ao acreditar que matou Harry, Voldemort despreza o amor materno e manda Narcisa conferir se o menino morreu e é traído pelo amor mais uma vez. Já Harry, descobre através do amor, que tem de voltar pela estação de King Cross, pois não pode deixar os amigos em perigo nas mãos de Voldemort. E é justamente por derramar seu amor pelos amigos, por encharcá-los com essa proteção mágica que nenhum feitiço lançado por Voldemort atinge a Ordem da Fênix e a Armada de Dumbledore na batalha final. É o amor incondicional de Harry pelo outro que salva vidas e destrói o pequeno Voldemort.

Tom Riddler (o nome verdadeiro de Voldemort) morre pelo que despreza, pelo que não aprendeu. Sua morte é simbólica, pois Harry o mata através das palavras e, ali, se justifica porque o leitor só podia matar Voldemort depois de mais de 3.000 páginas de muitas idas e vindas.

Harry quebra a onipotência infantil de Tom Riddler ao lhe mostrar que não adianta ter tanto poder, ser o dono do Ministério, ter um exército formado por escravos que nunca deram a vida por ele, pois Tom continua sendo uma criança. Uma criança que foi desprezada pelos pais, que foi maltratada em um orfanato e que nunca buscou a admiração através da amizade, mas usava a todos como se eles fossem seus escravos.

Tom Riddler foi tão infantil ao longo de sua vida que não percebeu que Belatriz era a única que daria, e deu, a vida por ele e que isso era por amor e não por sede de poder. Tom era infantil demais para compreender o amor, ele nunca foi amado, desejado, cuidado na sua infância, pelo contrário ele foi a ruína dos pais. E é ali, compreendendo o outro, entendendo sua história de vida e aceitando o outro como ele pode ser, que Harry vence a luta e pode entrar na vida adulta.

O colégio que está bloqueado para o retorno de Harry Potter, abre-se facilmente para Tom Riddler, na batalha final. Potter tem de entrar pelo retrato da criança Ariana, que representa aquela que nunca dominou a magia, que nunca pode sair da infância, Harry tem de penetrar na escola por ali, pois ele já cresceu, já aprendeu as lições e a agora a porta da infância está fechada para ele. Já Tom que nunca teve amor para banhá-lo, pode entrar pela porta da frente e abrir o tumulo de um professor. Aliás, ele não só pode como ele deve retornar a escola, pois a escola representa simbolicamente tudo o que aprendemos e, ao deixá-la, acredita-se que estaremos prontos para entrar no mundo adulto. Tom Riddler tem que voltar a escola, pois ainda há muitas lições para aprender, só que não há mais tempo, ele já teve muito tempo para crescer e não conseguiu chegar lá. Agora, chega o final do ano e com ele as reprovações nos NOM’s, Tom Riddler o grande monitor de Hogwarts falhou, não aprendeu as lições mais importantes, as grandes lições da vida, não aprendeu a amar. Harry, o adulto, deve ensiná-lo. Se Voldemort não aprendeu nada com Dumbledore quando adolescente, se ele não aprendeu com a frustração que a vida lhe deu, Harry tenta ensiná-lo rehistorizando sua vida, só que a vida de Tom é pobre, é vazia, é pequena, é mesquinha e culmina com a sua morte.

Afinal, se Tom não pode mais aprender a amar, ao leitor é concedida a chance de escolher o seu caminho, Harry ensina ao leitor aquilo que Alvo não conseguiu ensinar a Tom. E sabemos porque Alvo falhou, porque acreditou na teoria, mas não agiu de acordo com ela. Já Harry, sem conhecer a teoria, experimentou o amor na prática e por isso a última lição de Dumbledore está certa em sua linha de raciocínio: Harry foi maior do que Dumbledore. Harry cresceu e escolheu o seu caminho, nunca foi levado por alguém para o caminho que não quis, não havia culpa dentro dele pela escolha errada, pela morte de alguém ou por alguma dor irreparável.

No último livro, quando Harry cresce, ele não é o único e precisamos falar dos outros. Pois ali vemos que para crescer precisamos compreender o todo e cada personagem busca entender e sentir o seu oposto para enfim poder dizer: cresci. Ao longo dos livros, vemos que existem personagens adultos que ainda estão presos na infância, pois não conseguem relativizar e nem colocar a sua vida em proteção ao próximo.

Hermione que sempre vê o mundo pela lente da inteligência, consegue com as histórias infantis, entender que existem coisas que vão além da nossa capacidade de raciocínio; Rony sente a dor de quase perder Harry e Hermione em sua temporada de fuga e consegue aprender a abrir mão das coisas materiais e do seu ciúmes em nome da amizade; Neville descobre dentro de si a coragem que o colocou na Grinfinória, o poder de se sacrificar pelo outro. E assim, vemos os heróis crescendo e indo rumo ao mundo adulto e cheio de mistérios, com marcas, mas sem medos, unidos pelo amor que os guia até ali.

Na última cena do livro, vemos o trio principal embarcando seus filhos no trem que os levará até Hogwarts, eles embarcam as crianças para um dia virarem adultas. Eles permitem que seus filhos cresçam, assim como seus pais permitiram um dia seu crescimento. Há, aqui, uma autorização velada para que os filhos os ultrapassem, como eles um dia, ultrapassaram seus pais.

Harry, Rony e Hermione não podem entrar no trem, eles têm que ficar na plataforma, pois o mundo mágico se abre para as crianças crescerem. E, aos adultos, cabe a certeza de que aquele mundo permanecera lá para outras gerações e para buscarem forças quando necessitarem, mas já estará distante para se viver no mundo trouxa. A criança e o adolescente que fomos estará eternamente dentro de nós, mas deve estar no lugar certo, do tamanho certo e aparecer nas horas certas, pois só assim seremos adultos.

Harry Potter nos convida a ir ao mundo encantado, mas voltar no final de cada ano letivo, para não perder a realidade. O mundo da infância e da adolescência é tentador, mas é passageiro ou deveria ser. Hoje, vemos que há muita gente que não consegue deixá-lo. Existem muito falsos adultos com suas verdades parciais e sua incapacidade de amar espalhados em nosso mundo. Mas Harry está e estará lá para lhes dar a mão e convidá-los a embarcar para Hogwarts e deliciarem-se nas festas e nas tarefas da escola, mas desembarcar no final do ano para construir sua família aqui, no mundo real.

J.K. Rowling cria um universo completo para nos mostrar os perigos de ficarmos presos na infância e a felicidade quando a vida segue e podemos entrar com tudo nas aventuras do mundo adulto. A autora nos convida e embarcar na aventura e nos ilude lentamente para acreditarmos que aquele mundo magico é fantástico e maravilhoso, mas aos pouquinhos, com muita delicadeza e sabedoria ela vai nos desiludindo e nos devolvendo para o mundo real, transformados e alimentados para seguir adiante. Iludir e desiludir é aquilo que uma boa mãe faria, e faz eco ao que outro inglês, muito antes dela, no ensinou. Donald Winnicott desenvolveu um conceito de mãe suficientemente boa, que seria aquela que ilude o bebê e pode aos poucos ir desiludindo-o e abrindo espaço para a realidade. Rowling faz isso com o leitor, nos ilude, nos leva para um mundo a parte e ao longo de mais de 3000 paginas vai nos devolvendo, vai nos mostrando que o mundo dos bruxo e o mundo dos trouxas se confundem e se misturam, vai nos entregando a formula magica para crescer.